segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Quando uma coisa não é outra coisa - Ricardo Noblat

Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, observou com sabedoria o deputado José Genoino, na época presidente do PT e empenhado em negar a existência do mensalão.
Esqueceu ou só lembra vagamente do que se trata?
Mensalão foi o esquema milionário de pagamento de propinas a deputados para aprovação na Câmara de projetos do governo.
Usar dinheiro suspeito para comprar consciências seria uma coisa abominável, vil, incabível, muito além dos limites da irresponsabilidade do PT.
Outra coisa seria usar dinheiro não contabilizado ou não declarado à Justiça para financiar despesas de campanha do PT e de partidos aliados.
Orientado por Márcio Thomaz Bastos, seu ministro da Justiça, Lula foi curto e grosso ao resumir o assunto. Não houve mensalão, ponto. Tudo não passou de Caixa 2 de campanha.
Aleluia, irmão! Mensalão seria crime. Caixa 2 também é crime. Mas um crime corriqueiro praticado por todos os partidos, segundo Lula. De acordo? Em frente.
Uma coisa é Dilma ter dito que é a favor da descriminalização do aborto. Outra coisa é Serra, como ministro da Saúde, ter mandado o Sistema Unificado de Saúde (SUS) atender às mulheres vítimas de estupro e decididas a abortar como permite a lei.
De acordo? Menos! O ministro que antecedeu Serra no cargo se recusou a dar a ordem ao SUS. Por que?
Porque era contra o aborto mesmo nos casos previstos em lei – violência sexual e gravidez com risco de morte para a mãe.
Serra não estava obrigado a proceder de maneira diferente. Mas sensível à tragédia das mulheres que, tendo o direito a abortar, não dispunham de meios seguros para fazê-lo, orientou o SUS a socorrê-las.
Fez bem. Revelou-se um administrador humano. O Estado brasileiro é laico. Seu comportamento independe de doutrinas religiosas.
Na época, Serra poderia ter dito que era contra a descriminalização do aborto. E acrescentado que só agia daquela forma para ser coerente com a lei e tirá-la do papel. Não disse. Por quê?
Porque em consciência era – como continua sendo – favorável ao direito da mulher de somente ser mãe na hora que quiser. Esse, por sinal, era um dos muitos pontos que aproximavam o pensamento de Serra do pensamento da socióloga Ruth Cardoso, amiga dele e mulher do então presidente Fernando Henrique Cardoso.
É leviano atribuir a Serra a condição de mentor da campanha que apresenta Dilma como assassina de criancinhas. Não é leviano, porém, acusá-lo de surfar na campanha tocada por eleitores seus na internet e por pastores e bispos em igrejas.
Com todas as letras, a mulher de Serra chamou Dilma de assassina de criancinhas. Pesou a mão. Ele a desautorizou? Não.
Sempre que pode ou que lhe perguntam, Serra afirma ser contra o aborto. Não perde a chance de retocar o perfil de um homem religioso.
No debate com Dilma promovido pela Band no último dia 10, disse ser contra o aborto “até por uma questão pessoal”. Não lhe perguntaram que questão era essa. A frase ficou boiando no ar.
Uma coisa é ser contra o aborto. Outra é ser a favor da sua descriminalização.
Todos são contra o aborto – até mesmo as mulheres que um dia abortaram.
Descriminalização tem a ver com não ir para a cadeia. Em grande parte do mundo, nenhuma mulher está sujeita à prisão por ter abortado. Serra não precisa acelerar seu raciocínio para entender isso.
Dá um show de cinismo quando mistura uma coisa com a outra ou quando finge ser contra o que nunca foi.
O show atinge seu clímax quando beija imagens de santos e até comunga. Para comungar, um católico aplicado como Serra deve ter-se confessado recentemente. Data de quando a última vez que ele se ajoelhou diante de um padre e confessou seus pecados?
Mensalão não é Caixa 2. É um crime mais grave.
A Justiça aceitou a denúncia contra 40 integrantes da “sofisticada organização criminosa” que tentou se apoderar de parte do aparelho do Estado.
A posição de Serra sobre o aborto é igual a de Dilma sem tirar nem pôr.
O acerto de Serra, se ele tiver sorte, será com a Justiça divina.

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