sexta-feira, 19 de março de 2010

A música - Paulo Paixão

A boa música é aquela
Que nos deixa leves,
Voando o vôo do êxtase...

Ora estamos nos confins
Do universo, curtindo
A solidão eterna entre
As luzes e os corpos celestes,
Ora, sobre os vastos campos,
Beijando flores como as
Abelhas ou os colibris.

Vejo-me numa mesa de jantar
Rindo com meus irmãos,
Com meus pais.
Mamãe ensinando-nos o bom
Uso dos talheres.
Papai, contando-nos do dia a
Dia do seu trabalho.

Os amores de adolescente tinha
Tudo de mais romântico.
Um beijo roubado, desejos sufocados.
Planos, promessas, cartas de amor,
Briguinhas por ciúme, tantas
Cobranças, farras, festanças...
Assim era a rotina com o bem-amado.

Uma áurea sobre a lápide
Da Iana
Traz a saudade, a angústia e a dor.
Lágrimas parecem dizer:
Por que teve que nos deixar?
Está no além-mar, no além do céu...
Lá onde não podemos vê-la, tocá-la.

Só este fado na voz de Madredeus
Acompanhada por um violão
Plangente
Faz a gente se contentar. Até quando?
Não sei...

Meu pai saiu, disseram-me: foi
Para o Paraíso!
Ele nunca mais voltou...
Esperei-o dia após dia, com
Paciência e esperança..., aguardando
Vê-lo para servir sua janta;
Para ouvi-lo tocar seu saxofone.

Um dia todos irão para não
Mais voltar...
Que mistério é este Meu Deus?
Por que a dor, a dor, a dor, a dor?

Tenho um imã pela solidão...
Vejo-me no alto da serra
Olhando, lá embaixo, o rio azul
Ziguezaguear com mansidão
Sobre a mata...
Distingo suas notas monótonas...
Parecem entender a minha alma:
Solitária e calma...

Meu amor paira qual borboleta
Sobre o arbusto repleto de flores,
Sorrindo com aquela boca de dentes
Brancos e lábios carnudos.
Olhos azuis e cabelos louros lisos,
Olhando-me com ternura...

Nunca a alcancei na dura
Vida que vivo...
Mas ouvindo esta música
De saudade, ponteada por um violão
Melódico, posso vê-la, senti-la
E perdê-la tão logo o final
Da última nota...

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