segunda-feira, 26 de abril de 2010

A natureza agoniza - Paulo Paixão



Outro dia, estava sentado numa cadeira de embalo, de frente para a janela aberta da minha casa, com o olhar perdido no horizonte, conversando, silenciosamente, com os meus anjos e com as luzes do bem que me monitoram desde quando me tornei um ser humano, quando se operou em mim um diálogo interessante com a eternidade.

Quando assim me encontro, não dá outra...de súbito, em profusão, emergem imagens da minha terra idolatrada (Santarém, a pérola do Tapajós) e então, não sei se rio, se choro ou se me esforço para sufocar esse pesar, mudando o foco do meu olhar para a realidade do dia-a-dia de Belém. Nesse mergulho, vejo o rio azul na dança das maresias povoar minha mente com recordações dos passeios de barcos, das pescarias das férias colegiais, dos namoricos sob os cajuais e pitangas das praias de verão. Vejo, também, os passeios de canoas nos mansos lagos do Amazonas, protegidas das ondas e dos ventos atrás de uma moita de capim, sentindo o cheiro afrodisíaco dos igapós e estrumes de gado e ouvindo os sons díspares da natureza e o ribombar solitário de um trovão, após um clarão no céu lá pras bandas das grandes serras...

E vejo mais...vejo a mata verde repleta de vida: flores, frutos, borboletas, passarinhos, macacos, preguiças...que povoam toda a mata desde tempos remotos, o tempo da formação do universo pelo o Nosso Senhor Deus. Essa natureza me encanta tanto, tanto, que, afirmo, com sinceridade: se ela fosse extinta, neste momento, a um sopro de todas as forças satânicas, preferiria sucumbir com ela, pois, perderia, de uma só vez, a fonte inesgotável das minhas inspirações, que dão graça a este mundo, bem como, sentir-me-ia profundamente frustrado ao ver uma obra maravilhosa de nosso Deus ser desprezada pelo homem ao ponto de extingui-la para a promoção dos seus projetos colossais que alimentam sua soberba, seu materialismo, seu egoísmo e sua avareza.

Neste meu cismar uma energia se corporifica e toma forma a silhueta de um velho sábio de barba e cabelos longos, brancos, que, encarando-me com seu olhar apreensível, estabelece o seguinte diálogo comigo:

- No começo, o homem fez reduzidos sulcos na terra com diminutas pás de arado e queimadas de vidas que, a seu ver, em pouco tempo poderiam ser restabelecidas. Depois, abriram-se estradas, construíram gigantescas muralhas e continuaram suas queimadas...

Interferi a fala do velho sábio, fazendo-lhe uma pergunta:

- Por que há uma crescente gana de mutilação da terra pelo homem?

- Desobediência do homem ao plano de Deus. Tentações.

- Como se sabe, primeiro Deus fez o céu e o planeta Terra, depois, criou o homem “à sua imagem” e o encheu de poder para exercer o controle sobre a terra e seus viventes. O homem deveria exercer o seu domínio com o fito de se manter e mantê-los, tão-somente. Além disso, Deus presenteou o homem com o deslumbrante jardim do Éden. Deus o colocou naquele paraíso para cultivá-lo e protegê-lo.

Num ímpeto o velho aspirou o ar. Elevou sua mão direita para os céus, apontando seu indicador para uma paragem indefinida e continuou:

- Os olhos de Deus estão nos vendo, agora. Não conto uma fábula. É a mais pura verdade! Deus fez a natureza renovável. Veja as plantas como se renovam e os animais como podem se multiplicar!

- E como mesmo o homem deveria tratá-la? Atalhei concentrado nas ponderações do sábio senhor.

- Quando a frota de Cabral teve contato com os verdadeiros donos do Brasil, os índios, foi possível constatar-se como eles interagiam com a natureza. Faziam tal como nosso Deus nos houvera determinado fazê-lo. Serviam-se dela como um recém-nascido se serve do leite de sua mãe, sem exauri-la ou depredá-la. Os aborígines, que, na verdade deveríamos chamá-los de “habitantes”, tiravam da natureza somente o que precisavam para se manter e não para acumular riquezas.

O sábio senhor fez uma pausa para visualizar o infinito acima das palhas da palmeira de açaí, revoltas, balançando-se ao sabor do vento e continuou:

- Mas o homem nunca parou para refletir a “Natureza”. Não vê que ela é vida e uma vida, por mais singela que se nos pareça sua essência, é de uma complexidade fenomenal. Sua essência é divina. O homem só poderá manipulá-la e nunca lhe dar animação, porque a animação é de origem divina. É um mistério escondido nos escaninhos do céu, onde só Deus tem a chave para adentrá-los.

- E sabe o que é, ainda, mais instigante? Perguntou o sábio senhor olhando-me diretamente nos meus olhos.

- Diga-o, senhor.

- O universo todo continua em processo de ajustamento. Por esta razão algumas anomalias quando deflagradas causam tamanhos desastres aos quais damos o nome de “desastres naturais” que, de quando em vez, afligem os seres viventes e se tornam calamidades incontroláveis. Quando o homem interfere nesse processo, pode acelerar a sua deflagração.

- É verdade, recentemente, fomos surpreendidos pelo terremoto no Haiti que fez incontáveis vítimas, confirmando a impotência do homem diante da fúria da natureza – acrescentei com ares de muita amargura.

- Pois é Paulo, assome-se a isso o desprezo e desrespeito que o homem tem pela natureza, ela que é responsável até pelo ar que respiramos e pela comida que comemos. A natureza terrestre, diria, está num estágio de plena harmonia com o projeto de Deus. Ela flui naturalmente cumprindo sua função e qualquer interferência exterior ao seu próprio ciclo e sistema sutis é capaz de desencadear disfunções sistêmicas de conseqüências imprevisíveis e incontroláveis.

Novamente pedi um adendo para observar:

- Pior de tudo é que o homem sabe muito bem disso, no entanto, seus egoísmo e avareza ilimitados vendam seus olhos e o empurram para o precipício.

- Justamente. E então veio a revolução industrial com o seu processo de produção não mais artesanal ou manual, mas, através da aplicação de força motriz e a queima indiscriminada de combustíveis fósseis para mover suas industrias e a emissão, também indiscriminada, durante anos e anos, de resíduos poluentes para a atmosfera. Dessa época em diante impera a era da Globalização: tecnologia em constante avanço em todo o ramo do conhecimento humano aumenta a eficiência e produtividade e, então, o homem exaure, com rapidez, os recursos naturais renováveis e não renováveis e transforma a face do globo, antes, uma paisagem viva, exuberante, agora, um paisagismo opaco, inerte, inexpressivo, face à implantação de megaprojetos e gigantescos empreendimentos que, para a sua consecução, inclui, pormenorizadamente e com precisão, todos os custos operacionais ou não, mensuráveis, exceto os custos relativos à agressão e mutilação do meio-ambiente. A par disso vê-se, o desprezo e indiferença quanto à aplicação das normas e dos mecanismos de controles ambientais pelas instituições estatais, bem como com as causas sociais.

- Paulo, enumere você mesmo os danos provocados à natureza que você possa lembrar, cujas causas apontamos na nossa conversação.

- Pois não. Vamos lá: efeito estufa e com ele o aquecimento global; disseminação de doenças mortíferas; desmatamento e queima da floresta; desequilíbrio de vários ecossistemas; ondas insuportáveis de calor pelo mundo; perda da biodiversidade; deterioração do nosso patrimônio natural; processo de desertificação de áreas antes densamente florestadas; derretimento das placas de gelo da Antártida; instabilidade do clima; furacões; chuvas torrenciais, etc.

O velho sábio parou de falar. Deixou que o silêncio envolvesse as nossas imagináveis e claras conclusões e finalmente profetizou:

- Será o fim anunciado. Sem dúvida, haverá uma interferência dos céus, pois, o mal jamais prevalecerá sobre o bem!

Assim que a imagem do velho sábio se tornou volátil e se desfez no espaço, fui sacudido pelos ombros por minha mulher que disse:

- Acorda, acorda Paulo, vem ver a televisão. O verão prolongado secou um afluente do Amazonas e provou a mortandade de milhares de peixes!





Paulo Paixão

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